domingo, 25 de maio de 2014

A Fila e o Galo...



Mais um artigo do nosso colunista Espedito Moreira Veterano e escritor lá do RN
A FILA E O GALO
Espedito Moreira*
Num fim de semana recente, minha mulher e eu fomos convidados pela direção de uma associação de idosos para um passeio. O destino seria uma chácara de propriedade de um dos membros dessa associação, distante cerca de 90km do centro de Natal. Haveria um ônibus para aqueles que não quisessem ir de automóvel ou não conhecessem o caminho até o destino traçado. Optamos pelo ônibus. A viagem foi muito agradável e durou cerca de duas horas.

A sede da chácara é uma construção de bom gosto. São várias dependências: salões, quartos, cozinha, banheiros. Quase toda circundada por alpendres bem ventilados, equipados com estruturas para armação de redes postas à disposição dos convidados. Ótima piscina, pequena academia de ginástica e uma churrasqueira. Vários outros equipamentos completavam o espaço de lazer. Um pomar, com várias árvores, algumas frutíferas, dava um aspecto agradável ao lugar.

Quando os convidados chegaram, foram recebidos com muita simpatia pela anfitriã. Muito simpática, a criatura fez questão de ela mesma servir bandejas e mais bandejas de salgadinhos acompanhados de sucos e refrigerantes.  Ao mesmo tempo, sugeria que todos ficassem à vontade e procurassem desfrutar o máximo das facilidades disponíveis.

O dia estava lindo, não chovia e o sol colaborava. Logo, o grupo se dispersou formando grupos menores para a prática de atividades de seu interesse.

Pouco depois, foi anunciado o programa da estada que se resumiu em grupos de representação, dança e a escolha, entre candidatas voluntárias, daquela que seria eleita a “Rainha da Melhor Vida” para representar a associação nos dois anos seguintes. E, por último, foi avisado que o almoço seria servido aí por volta das 14 horas.

Tiveram início as apresentações. A participação era voluntária. Além de algumas danças, a gente somente observava as demais atividades, até que fomos convidados para participarde uma brincadeira que consistia em sortear um pedaço de papel no qual estava escrito a tarefa que o sorteado teria de cumprir. Coube a mim a seguinte: “cite duas coisas de que você não gosta - explique”.

Moleza, pensei: política partidária, corrupção, impunidade, insegurança pública, desassistência médica, atendimento hospitalar, entre outros.

Enquanto os outros iam fazendo as suas apresentações, aguardava a minha vez e, ao mesmo tempo, procurava fazer a minha escolha definitiva. De repente, pintou a dúvida: não conheço a maioria dessas pessoas, vai que algumas delas se encaixem num desses assuntos... Ouço o meu nome acompanhado do aviso de que chegara a minha vez.
Segui na direção do local onde faria a minha apresentação. Estava indeciso. Lembrei-me, contudo, de duas coisas das quais também não gosto: de fila e de canto de galo. Cá com meus pensamentos, ficou a decisão, é sobre isso que devo me manifestar. Quando perguntado qual era a minha tarefa, respondi: “cite duas coisas de que você não gosta...”. “E de que ou de quem você vai falar?” “De fila e de canto de galo”, respondi. “Fique à vontade, disse o mestre de cerimônia”.

Comecei. “Não gosto de fila porque ela já me fez desperdiçar muito tempo de minha vida que poderia ter sido empregado para realizar atividades importantes. Se chegada a minha ‘hora’, Deus permitir que viva com saúde e paz o correspondente ao tempo em que fiquei nas diversas filas da vida, viveria ainda muitos anos. Dizem que a fila é um mal necessário, que faz parte do sistema organizacional. Eu até concordo, mas só em parte. Com certeza, na frente de uma fila, não na retaguarda, está a razão da existência dela – a falta de organização”. Fiz uma pequena pausa e continuei. “As filas mais irritantes são as de espera por transporte, por consulta médica, por atendimento bancário. Tentam-se solucionar o problema, mas, quando muito, o máximo que se consegue é trocar a posição do cliente: em vez de permanecer em pé, dão-lhe uma cadeira pouco desconfortável para sentar-se. O sistema de transporte, seja que modalidade for, tem o processo de espera mais desconfortável de todos. Agências bancárias tentam resolver parte do problema acrescentando terminais (caixas eletrônicos) para atendimento aos clientes. Todavia, o atendimento personalizado ainda é muito desgastante. O pior deles, na minha opinião, é o sistema de atendimento na assistência à saúde. Quando alguém liga para a recepcionista ou vai até a sua presença marcar uma consulta e ouve dela que o atendimento será a partir de tal hora e, que por sua vez, o encaminhamento ao médico é por ordem de chegada, pode escrever: vai levar chá de cadeira. É muito fácil deduzir: não vai ser por hora marcada porque o médico  sempre chegará atrasado”. Para encerrar: “Na falta de outra solução, procuro me adaptar às filas, mas prefiro as dinâmicas às estáticas.”

Ouvem-se alguns aplausos. Agradeço e quando ia dando por encerrada a minha apresentação, alguém da plateia falou: “E o galo?” “Ah! Desculpem-me. Querem ouvir a história do galo?” “Por favor, continue”, disse o mestre de cerimônia.

A memória recorreu aos meus anos de pré-adolescência quando começara, então, a minha insatisfação com o canto do galo. Então, disse o seguinte: “Não tenho nada contra o galo, pelo contrário, simpatizo bastante com ele quando sai da panela para o prato. Não gosto, porém, do ‘canto do galo’. Até aos dezoito anos de vida, morei na zona rural. Naqueles tempos, quase ninguém possuía relógio. Os mais abastados tinham um carrilhão (relógio de parede, como se chamava). Os demais se valiam da experiência e das observações para calcular as horas. Por exemplo: quando o sol nascia, eram seis horas; quando estava a pino, era meio dia; quando desaparecia no horizonte, eram dezoito horas. Entre outros recursos, havia o ‘canto do galo’. A sinfonia começava pela madrugada, por volta de três horas e se prolongava até o raiar do sol. Não se sabia exatamente quem dava o primeiro acorde. Mas, em pouco tempo, todas as comunidades estavam ligadas pela corrente sonora que se manifestava através dos mais diversos timbres, vindos da garganta daqueles galináceos. Chegava a desconfiar que o nosso galo dava início à abertura do recital. Seu timbre de voz fazia o do tenor Pavarottti parecer uma segunda voz”.  

Depois dessa introdução, retomei a minha narração. “Quando cheguei à pré-adolescência, meus pais me deram algumas tarefas que se iniciariam exatamente quando os galos começassem a cantar. Exatamente, na melhor hora do sono, fazendo aquele friozinho gostoso, eu teria que me despertar e me levantar. Isso acontecia, ao tempo máximo em que a segunda voz recitava o meu nome: ‘já levantou, fulano’? Se aguardasse a terceira, o ambiente ficaria pesado. O jeito era partir para a luta, sabendo que, na vez seguinte, lá estariam os galos, na mesma hora, executando a mesma melodia e azucrinando a minha vida. Como odeio o ‘canto de galo”! Entre risos da plateia e aplausos, estava cumprida a minha tarefa.

Depois, na hora do almoço, todos entraram em fila para serem servidos. Aos comentários recorrentes, eu respondia: “esta é uma fila dinâmica, entro com muito ‘gosto”. E, para completar, infelizmente no cardápio não nos foi servido nenhum galináceo assado.

* Veterano e escritor. Publicou o livro
Memórias de uma Tríplice Jornada

2 comentários:

Ivan Junqueira disse...

CONTO INTERESSANTE, PARABENS AO NOBRE ESCRITOR.

Edilson Ramos disse...

Gostei do galo, imagine na panela... Delícia! Parabéns! ao autor.